maio 20, 2010

Arte no Espaço, literalmente...


Resolvido a pintura... onde mostrar?

Paulo Herkenhoff, que vinha me orientando, propôs que eu realizasse uma primeira individual na UFF – Universidade Federal Fluminense onde alguns dos destaques daquele período costumavam expor. Fiz minha primeira insolência com o amigo: “Não vim pro Rio para expor em Niterói”.

Passado a indelicadeza, fui convidado por indicação do Paulo para uma mostra no Planetário da Gávea, ‘Arte no Espaço’ ou algo parecido com curadoria de não me lembro quem... e me avisou: “Chega cedo porque é importante na escolha dos lugares”. Fui o primeiro a chegar, mas escolhi um lugar tímido com pé direito baixo, no entorno do planetário. Era uma tela grande de uns 5 metros na dimensão horizontal, em amarelo e rosa: “Ciel de Paris avec Santos-Dumont et Brigit Bardot”. Como era de hábito, depois a tela foi recortada para ser reaproveitada em outras pinturas.

Após fixar a tela, apareceram algumas pessoas da montagem propondo que eu colocasse meu trabalho no hall de entrada com um pé direito exuberante, creio que com mais de cinco metros de altura, junto a pintores que haviam passado pela Dokumenta de Kessel. Mudei a tela para o local preferido. Me senti muito feliz e até comemorei com algumas cervejas no baixo Gávea.

Na manhã seguinte, dia de abertura da mostra, passei no local para ajustar a obra, checar detalhes e fui surpreendido com a informação de que deveria voltar com minha pintura para o local original. Calmamente informei que não voltaria, pois eles tinham colocado um doce na minha boca e agora pretendiam tirar... não concordei. Pediram um prazo para resolver tudo até o meio dia. Como até aquela hora nenhuma decisão estava firmada, peguei minha tela, enrolei e fui embora.

No vernissage, Paulo Herkenhoff chega irritado com minha atitude e após minhas explicações ele concorda. E minhas novas pinturas continuavam inéditas na cidade maravilhosa...

[ilustrando: um estudo do período, 1983]

maio 11, 2010

Pinturas Cariocas


Exposições, palestras, tudo... praticamente só pintura. Iniciei nessa época, 1983, as primeiras PINTURAS CARIOCAS. Morando no Jardim Botânico, próximo a Lygia Pape e Tom Jobim. E com a mente no neoconcretismo e na bossanova!

No início, os primeiros estudos foram desenvolvidos sobre formatos retangulares, mas logo passei a fazer recortes nas telas para sair da prisão do suporte. Como Matisse...

Nessa época, além de freqüentar os papos de Aluísio Carvão no MAM tinha a atenção do Paulo Herkenhoff, que foi na época meu principal interlocutor e incentivador, desejoso de emplacar um artista capixaba entre os nomes nacionais. Além da ‘tia’ Lygia Pape, sempre disponível para os papos e opiniões adequadas...

Trabalhei muito, muitos meses até chegar a um resultado que me deixou satisfeito e que frutificou durante cerca de vinte anos. Os últimos trabalhos dentro desses conceitos e estética foram realizados em 2004, na série ‘Chega de Saudade’ apresentada no lançamento da ‘Bíblia’, no Museu de Arte do ES.

Ilustrando: ‘Pintura Carioca’ acrílica s/ madeira recortada, 1988 – col. Luizah Dantas.

março 31, 2010

Rumo ao Pós-Tudo


Caos e falta de perspectivas em Vitória, o destino me leva pro Rio de Janeiro, acho que no final de 82 ou início de 83.

O período coincide com a saturação das vanguardas, a falência de algumas utopias e a emergência das teses pós-modernistas, germinadas na Bienal de Veneza de 1980, com curadoria de Achille Bonito Oliva, que dizia no texto publicado no catálogo geral da Bienal: “A nova arte se abebera no mais fundo de uma reserva inesgotável, onde abstrato e figurativo, vanguarda e tradição, vivem no cruzamento de uma pluralidade de reencontros.”

Hélio Oiticica e Glauber Rocha, dois sinalizadores... não existiam mais.

Com o estabelecimento dos paradigmas da pós-modernidade e o esvaziamento das posições políticas e estéticas que predominavam desde os anos 60, agora era o retorno ostensivo de valorização da pintura como forma praticamente única de representação artística naquele momento. E os donos de galeria praticamente substituindo os críticos na legitimação da importância das obras.

Na época eu ainda mantinha um código pessoal no desenvolvimento e apresentação de meus trabalhos: só mostrar onde eu estivesse residindo. Agora a paisagem seria carioca...

Já conhecia bem a cidade, pois a frequentava eventualmente e havia residido algum tempo no início dos 70. Primeira tarefa: freqüentar TODAS as mostras e palestras.

janeiro 25, 2010

Vida Dupla


Minha vida dupla, pra sustentar o vício de produzir arte não comercializável [naqueles tempos...] incluía atividades gráficas para revistas, jornais, além de inventar e estruturar, em 1976, a TVE do ES e no início dos anos 80 transformar os modos de se fazer rádio FM no estado do Espírito Santo, na direção da Tribuna, alçada rapidamente ao primeiro lugar em audiência.

Divergências nos rumos da implantação da TV Tribuna, questões pessoais e a baixíssima possibilidade de continuar desenvolvendo uma arte na dimensão dos meus desejos na cidade de Vitória [lembrando: não existia ainda a internet...] praticamente me obrigaram a deixar a ilha para uma segunda temporada carioca.

Lá, ainda no início dos 80, paralelamente à minha dedicação ao universo arte, fui escravo oficialmente pela última vez, tendo como ‘senhor’ Roberto Marinho e sua Rede Globo de Televisão. Como produtor executivo do programa Quarta Nobre tive uma experiência muito enriquecedora do ponto de vista do conhecimento dos mecanismos de realização de uma das maiores emissoras em atividade naquele momento no mundo.

No cotidiano dos estúdios - e sem grandes intimidades - algumas pessoas interessantes como Dina Sfat, Denis Carvalho, Malu Mader fazendo sua primeira novela, Paulo José, Renata Sorrah...

Mas no fundo é igual fabricar sardinha [pelo menos no que imagino seja ‘fabricar’ sardinha...] e antes de completar o segundo ano dentro dos estúdios sem jamais poder assistir ao por do sol [tinha que dar sorte no fim de semana...] perguntei se podia ir embora.

Foram muito gentis e me indenizaram [?] com uma pequena montanha de dinheiro! Depois ainda participei de alguns clips pro Fantástico, me divertindo com o amigo e diretor Ignácio Coqueiro.

Plim-Plim !

[na imagem, poladroid da foto do crachá global]

janeiro 24, 2010

Noturnos e o Pós-modernismo


De volta ao cubo branco. Centro de Artes Homero Massena, 1981.

Eis a síntese de um texto de época, publicado em A Gazeta, 11 de novembro de 1981:

Esta exposição seria outra

Quando marquei a data para a realização desta mostra, pensava em realizar um projeto ligado ao anterior Taru. Além de utilizar o mesmo espaço, voltaria ao uso do vídeotape, gás neon e plástico.

Tentaria, nessa experiência, chegar a uma linguagem acessível e pessoas de diferentes tipos de referências culturais. Ou seja: utilizando meios ainda sofisticados em nossa comunidade, tentaria fazer uma ‘arte popular’ no sentido de ser o mais compreensível possível.

Aí aconteceu o inesperado, ou esperado para mais tarde. Sempre desenhei, mas só incidentalmente utilizei desenhos em meus projetos. Tinha um relacionamento muito crítico e experimental com a arte. Usava uma linguagem representativa das transformações da época.

Curado temporariamente do vírus televisão, fazendo programação visual, me vi, numa média de seis horas diárias, envolvido com lápis e papel. E chegava em casa e continuava desenhando. Quando olhei em volta, descobri que tinha realizado alguns desenhos e estudos que me satisfaziam. Resolvi mudar a exposição.

Em 1972, em entrevista, afirmei que ‘jamais pintaria um quadro’. Logo depois já pensava diferente. Mas, até essa exposição jamais havia assinado um desenho.




Os desenhos NOTURNOS mantinham a tradição local, ainda não identificada/estudada pela academia naqueles anos, de um imaginário paisagístico mesmo que nem sempre real. Feitos com pastel sobre celulose.


Pois é... por caminhos imprevistos, estava me antecipando ou antenando para o que viria explodir em 84, com a chamada Geração 80, que eu veria nascer nas tardes do Parque Laje, no Rio de Janeiro. Além dos 36 desenhos expostos, a mostra incluía seis pinturas em acrílico sobre tela. O prazer da pintura!

[Mastro de São Benedito – coleção Museu de Arte do ES e Van Gogh – coleção Hilal Sami - desenhos em pastel sobre celulose, 42x64cm - Nenna,1981]

janeiro 23, 2010

Resistência Psicodélica



Dúvida total ao batizar o período 1970-79, mas de alguma maneira acho que faz sentido. Resistência à ditadura militar e seus tentáculos diretos na vida cultural, mas ao mesmo tempo psicodélica, pois já diluindo os significados de esquerda e direita e decifrando os novos paradigmas da fornada de maio 68.

Leia mais:
http://nennahistoriasdaarte.blogspot.com/2009/09/atualidades-i-fatiando-o-tempo.html

[poladroid: Nenna]

janeiro 22, 2010

Tempo | Taru


Finalmente um ‘cubo branco’. Ainda precário, em termos de iluminação e equipamentos, mas finalmente a província capixaba – sinal dos novos tempos de industrialização tardia – tem sua galeria de arte, batizada ‘Centro de Artes Homero Massena’.

Em 1979, planejei a mostra Taru [vocábulo botocudo que significa Tempo] como uma ‘retrospectiva em desenvolvimento’. Como novidade tecnológica aparecia o vídeo pela primeira vez, além do reaproveitamento dos embrulhos transparentes mostrados no MAM-Rio.


O vídeo, desaparecido, foi captado primeiro em película 16mm com fotografia de Jonas Conti e mostrava um ambiente caseiro com pinturas, gravuras, livros, discos, violão... sonorizado com os tambores guerreiros do Burundi e um poema de Carmélia Maria de Souza, interpretado por Tadeu Teixeira:

“De repente eu voltei aos meus cigarros
Eu comecei a futucar um punhado de livros
Eu remexi uma porção de jornais velhos e de velhas lembranças
E não demorou muito, eu já estava com todos os sintomas
De uma ameaçadora fossa agressiva. Das mais terríveis.
Dessas assim que obrigam a gente a jogar tudo pra cima,
Dar com a cabeça na parede, comer pedaços de estante,
E engulir todas as coisas que for encontrando pela frente,
Sem sequer ter o cuidado de mastigar.

Eu sinto que é preciso fazer alguma coisa,
Cantar, uivar, telefonar, providenciar enfim,
Que desgraça pouca é bobagem.

Não fazer nada é o mesmo que contribuir para a impressão idiota
De que essa vida é sem expressão.

Mas eu não vou ficar aqui, entregue às baratas, enquanto eu sei que a noite é grande. E a baderna é igualmente grande lá fora.

Eu resolvi, pois,
Conversar com você.”

A edição final – em moviola - foi feita em Paris, com Marinho Celestino, na Université de Vincennes, em maio de 78, quando a cidade comemorava os dez anos do outro maio. Depois transcrito para vídeo no formato U-Matic.

Nos embrulhos transparentes [com desenhos, textos, fotos antigas, polaroids...] um pouco do percurso que seguia por uma tentativa de novos caminhos... de terminar um ciclo.

A anistia próxima, e a pós-modernidade se insinuando no horizonte. Ponto final da ‘resistência psicodélica’.

[Fotos: Carlito Medeiros/A Gazeta]